Queime, querida, queime!

Por Eduardo Cambuí Jr *

O incêndio que devastou o Museu Nacional no Rio de Janeiro, infelizmente causando um prejuízo inestimável para a cultura, na verdade é o reflexo de uma fogueira que vem sendo alimentada há anos pelos nossos governantes. Podemos até imaginar que este descaso e a diminuição gradativa de recursos destinados a cultura e a educação atuam como o combustível que mantém essa fogueira acesa e cada dia mais alta. Talvez eles pensem que não é preciso gastar mais dinheiro com educação e cultura e que estas pastas sejam na verdade, o principal alvo quando se fala em economia de gastos. Mas a fogueira das vaidades, essa sim, é alimentada sem economias e cresce exponencialmente.

E este descaso que começa em Brasília, vai atingindo diversas esferas (num efeito dominó) até nos acertar em cheio, você e eu. Quando o governo federal decide criar a reforma no ensino médio e literalmente retirar a importância de matérias como Artes e Filosofia, é mais ou menos como jogar um galão de gasolina nesta fogueira. Mas será que esta fogueira queima só o Museu Nacional? Busquem na memória e com certeza vão se lembrar que o Museu da Língua Brasileira e o Instituto Butantã, só para citar alguns, também já foram vítimas de incêndio há pouco tempo atrás.

Olhando mais para perto de nós, o Museu Regional de Macaúbas (gerida pela Fundação Cultural Prof. José Batista da Mota), funciona praticamente por teimosia e sobretudo por fidelidade à causa cultural, abraçada pelo seu criador e levada adiante por seus atuais membros, a trancos e barrancos. Não há recursos públicos para a Fundação, por mais que ela seja reconhecida como uma entidade de utilidade pública, não há interesse dos nossos representantes pela cultura que ela abriga e toda esta falta de importância que foi creditada a ela publicamente, evidenciada pelas ações (ou falta delas) que são negadas pelos representantes, chega na camada popular, no imaginário do homem mais simples, que vendo todo esse desprezo pela cultura, começa a acreditar também que cultura não é para ele, que é uma coisa menor ou que é pura perda de tempo. É bem neste momento que o ciclo da fogueira cultural se fecha.

Será que em algum momento você, leitor, não se queixou consigo mesmo ou com os que estão próximos de você que não há opções de lazer que não seja beber e comer na cidade? E como ter uma saída cultural se não há incentivo público? E incentivo público engloba recursos destinados pelo governo, não importa de qual esfera, e também pelo apoio do público em valorizar a cultura como uma via de educação e entretenimento. Olhe com mais atenção, porque aquela fogueira da televisão pode estar queimando bem pertinho de você!

* Eduardo Cambuí Junior

Artista plástico e Diretor Executivo da Fundação Cultural Prof. Mota


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